Tema 2 
 

CAIXAS ISCAS E ENXAMEAÇÃO EM ABELHAS AFRICANIZADAS 
Coordenador: Ademilson Espencer Egea Soares 
Depto. de Genética. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. 



 
 

     As abelhas africanas, sabidamente conhecidas como altamente produtivas e 
    agressivas, foram introduzidas no Brasil em 1956 em Camaquã na região de Rio Claro-SP com o intuito de se executar um programa de melhoramento genético que fosse capaz de aumentar a produção de mel do país, associado a uma baixa agressividade.

    Entretanto,  devido a uma manipulação incorreta feita por um apicultor que estava visitando o apiário onde as rainhas africanas estavam sob controle, ocorreu a enxameação de 26 colméias. 

    Isto levou ao início de  um processo de cruzamentos naturais com as abelhas de origem européia que haviam sido trazidas pelos imigrantes entre 1840-1850, propiciando a formação de um híbrido, que foi chamado de abelha africanizada. 
     

    Essa abelha africanizada embora muito produtiva causou um impacto muito grande no início de sua dispersão, devido ao alto grau de agressividade que elas apresentavam e as próprias deficiências dos apicultores e da população em geral que não sabiam como trabalhar e conviver com elas. Houve abandono da atividade apícola, morte de pessoas, animais e  a produção de mel, que já era baixa, praticamente zerou. Foram dias negros. 

    Entretanto, com o passar do tempo, os apicultores se conscientizaram que essas abelhas poderiam ser controladas e exploradas com êxito, se houvesse uma adequação e uma total reformulação de técnicas e conceitos válidos para as abelhas européias, mas que eram desastrosos para a abelha africanizada. 

    Baseando-se em suas próprias experiências e nas informações geradas pelos centros de pesquisas, os apicultores conseguiram assimilar as novas técnicas e passaram novamente a acreditar que seria possível uma apicultura eficiente com abelhas africanizadas. 

    A apicultura voltou a tomar impulso fazendo com que nos anos 80 tivéssemos a chamada "explosão doce" no país, quando o Brasil passou de 27º para o 7º produtor mundial de mel, ocupando hoje o 5º lugar com uma produção de aproximadamente 35.000 ton/ano, se tornando um dos maiores produtores  sul-americano. 

    Muito bem adaptada às condições tropicais, essa abelha africanizada apresenta basicamente dois modelos de dispersão que têm favorecido a sua sobrevivência e a expansão no continente americano. Migrando a uma velocidade de 400-500 km por ano, atingiu o Texas (USA) em outubro de 1990. Dentro dos Estados Unidos a abelha africanizada tem migrado, mais em relação a costa oeste e já foi detectada no sul da Califórnia. 

    Quando as condições de fluxo de alimento são ótimas, com abundância de flores abertas na natureza, produzindo néctar e pólen, as abelhas africanizadas trabalham incessantemente. Expandem sua população que, em alguns casos, chega a 120 mil abelhas e podem produzir uma divisão natural da colônia pelo processo de enxameação. Neste processo ocorre a formação de uma nova rainha e a metade das abelhas da colônia sai com a rainha velha à procura de um local adequado de nidificação para estabelecer a sua nova moradia. 

    Quando o fluxo de alimento diminui, para não morrerem de fome e não terem extinta a sua colônia, as abelhas abandonam a colméia e vão em busca de um outro local que apresente condições favoráveis a sua sobrevivência. 

    Esses dois mecanismos, enxameação e abandono, embora sejam altamente adaptativos para a sobrevivência das abelhas, podem contribuir para o aumento significativo do número de acidentes com animais e pessoas. 

    Ao escolherem o seu novo local de nidificação, como por exemplo: tubulações, caixas de madeira ou de papelão, cavidades em postes, paredes, árvores, latas velhas, pneus, cupinzeiros, arbustos, tambores, etc, as abelhas podem se posicionar de maneira a provocar acidentes fatais. 

    Esses acidentes podem ser produzidos inadvertidamente quando capinamos um gramado, cortamos um arbusto, aramos um terreno, batemos no local do enxame ou nele provocamos uma vibração sonora, ou de uma forma irresponsável quando atiramos pedras, paus nas colméias ou simplesmente quando tentamos mexer com as abelhas sem os devidos conhecimentos e sem os equipamentos se segurança e proteção. 

    Evidentemente que estes dois mecanismos que contribuem para a dispersão das abelhas e sua localização na natureza, apresentam em comum um aspecto fundamental, que é a escolha pelas campeiras ou batedoras do sítio definitivo de moradia. 

    A escolha do local onde o enxame vai se instalar, envolve inicialmente  o reconhecimento dos sítios pelas batedoras, comunicação pela dança e a liberação de feromônios, notadamente da glândula de Nassanof das operárias, que sinalizam o local definitivo onde se dará a agregação  e  início da nova colméia. 

    A compreensão e a elucidação de quais variáveis poderiam estar influenciando neste comportamento decisório, poderia resultar em uma "caixa isca" que fosse altamente atrativa para as abelhas e que fosse extremamente prática para a monitoração e retirada dos enxames das regiões passíveis de acidentes. 

    O Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo) conseguiu tal intento desenvolvendo uma caixa-isca padrão, confeccionada de papelão, que deve ser pintada com cores claras (branco ou amarelo) que são 1.5 X mais eficientes que aquelas pintadas com cores mais escuras (verde folha, azul marinho ou preta). Deve ter um volume de aproximadamente 35 litros, conter no seu interior 5 caixilhos, com 1/3 de cera alveolada, e ter um análogo do feromônio da glândula de Nassanof, que é extraído do capim limão ou capim erva cidreira (Cymbopogon citratus), que é colocado em vaselina e aplicado nas paredes da colméia ou no interior de um tubo eppendorf preso no arame do caixilho central. A caixa deve ter uma abertura de 10 cm2 , e dever ser colocada a uma altura de 2,0 m do solo. 

    Testes comparativos revelaram que  a caixa papelão é pelo menos 10 vezes mais atrativa que aquelas caixas iscas construidas com madeira e sua durabilidade pode ser aumentada revestindo-as com sacos plásticos ou pintando com tintas impermeabilizantes. 

    Essa caixa entretanto, não serve para criar abelhas. É uma caixa que se presta simplesmente para a captura dos enxames e não para se fazer apicultura. Embora a caixa de papelão resista até 2 meses com o enxame dentro, eles devem ser passados logo para a colméia Langstroth padrão para se desenvolverem. A transferência do enxame deve ser feita de preferência depois que a rainha realizou postura nos favos e que já tenha larvas jovens. Não convém passar o enxame recém pego porque ele poderá abandonar a sua colméia. 

    A eficiência dessa caixa isca, já foi determinada em várias situações experimentais, e hoje temos a total certeza de que se durante a exameagem ela for encontrada por uma "batedora" que esta procurando um local para o enxame se abrigar, seguramente que o enxame irá para dentro da caixa isca. Isto abriu a grande possibilidade de prevenir e controlar acidentes em áreas urbanizadas. 

    A utilização dessas caixas iscas pelo Departamento de Genética da FMRP-USP como estratégia de prevenção de acidentes, já foi realizada na indústria AKZ turbinas (Ribeirão Preto, SP), na Fazenda Amália (Cajuru-Serrana, SP) e na própria cidade de Ribeirão Preto, com resultados altamente significativos, obtidos através do Programa SOS Apicultor. 

    Esse modelo de caixa isca, foi utilizado nos países Centro-Americano, para prevenir acidentes e retardar a invasão das abelhas africanizadas no México e nos USA dentro do “Programa de Manejo y Control de la Abeja Africanizada”, financiado pelo BID/OIRSA do qual participaram vários pesquisadores brasileiros. 

    O México que é um dos maiores exportadores de mel, antevendo o que poderia significar a entrada das abelhas africanizadas em seu país, utilizou  o modelo brasileiro de caixas-iscas, e instalou aproximadamente 300.000 caixas iscas nas rotas de entrada com a Guatemala e hoje mantém um esquema na própria cidade do México de prevenção de acidentes, utilizando ao redor 30.000 caixas. 

     Os apicultores podem optar também por caixas iscas feitas de madeira que são mais duráveis, mas devem obedecer os mesmos procedimentos para as caixas de papelão.

 

 



 

Sua participação é importante: Escreva-nos 
       

Favor não usar acentos  em suas mensagens.  Obrigado.

Nome:         

Instituição:  

e-mail:       



Dê sua opinião

   Veja a lista completa dos textos enviados 
 
 
  Copyright © 1997 BeeScience. Todos os direitos reservados.
Revisado: 17 Junho 1999
.