Entretanto, devido a uma manipulação incorreta feita
por um apicultor que estava visitando o apiário onde as rainhas africanas estavam sob
controle, ocorreu a enxameação de 26 colméias.
Isto levou ao início de um processo de cruzamentos
naturais com as abelhas de origem européia que haviam sido trazidas pelos imigrantes
entre 1840-1850, propiciando a formação de um híbrido, que foi chamado de abelha
africanizada.
Essa abelha africanizada embora muito produtiva causou um
impacto muito grande no início de sua dispersão, devido ao alto grau de agressividade
que elas apresentavam e as próprias deficiências dos apicultores e da população em
geral que não sabiam como trabalhar e conviver com elas. Houve
abandono da atividade apícola, morte de pessoas, animais e a produção de mel, que
já era baixa, praticamente zerou. Foram dias negros.
Entretanto, com o passar do tempo, os apicultores se
conscientizaram que essas abelhas poderiam ser controladas e exploradas com êxito, se
houvesse uma adequação e uma total reformulação de técnicas e conceitos válidos para
as abelhas européias, mas que eram desastrosos para a abelha africanizada.
Baseando-se em suas próprias experiências e nas
informações geradas pelos centros de pesquisas, os apicultores conseguiram assimilar as
novas técnicas e passaram novamente a acreditar que seria possível uma apicultura
eficiente com abelhas africanizadas.
A apicultura voltou a tomar impulso fazendo com que nos anos
80 tivéssemos a chamada "explosão doce" no país, quando o Brasil passou de
27º para o 7º produtor mundial de mel, ocupando hoje o 5º lugar com uma produção de
aproximadamente 35.000 ton/ano, se tornando um dos maiores produtores sul-americano.
Muito bem adaptada às condições tropicais, essa abelha
africanizada apresenta basicamente dois modelos de dispersão que têm favorecido a sua
sobrevivência e a expansão no continente americano. Migrando
a uma velocidade de 400-500 km por ano, atingiu o Texas (USA) em outubro de 1990. Dentro dos Estados Unidos a abelha africanizada tem migrado, mais em
relação a costa oeste e já foi detectada no sul da Califórnia.
Quando as condições de fluxo de alimento são ótimas, com
abundância de flores abertas na natureza, produzindo néctar e pólen, as abelhas
africanizadas trabalham incessantemente. Expandem sua população que, em alguns casos,
chega a 120 mil abelhas e podem produzir uma divisão natural da colônia pelo processo de
enxameação. Neste processo ocorre a formação de uma nova rainha e a metade das abelhas
da colônia sai com a rainha velha à procura de um local adequado de nidificação para
estabelecer a sua nova moradia.
Quando o fluxo de alimento diminui, para não morrerem de fome
e não terem extinta a sua colônia, as abelhas abandonam a colméia e vão em busca de um
outro local que apresente condições favoráveis a sua sobrevivência.
Esses dois mecanismos, enxameação e abandono, embora sejam
altamente adaptativos para a sobrevivência das abelhas, podem contribuir para o aumento
significativo do número de acidentes com animais e pessoas.
Ao escolherem o seu novo local de nidificação, como por
exemplo: tubulações, caixas de madeira ou de papelão, cavidades em postes, paredes,
árvores, latas velhas, pneus, cupinzeiros, arbustos, tambores, etc, as abelhas podem se
posicionar de maneira a provocar acidentes fatais.
Esses acidentes podem ser produzidos inadvertidamente quando
capinamos um gramado, cortamos um arbusto, aramos um terreno, batemos no local do enxame
ou nele provocamos uma vibração sonora, ou de uma forma irresponsável quando atiramos
pedras, paus nas colméias ou simplesmente quando tentamos mexer com as abelhas sem os
devidos conhecimentos e sem os equipamentos se segurança e proteção.
Evidentemente que estes dois mecanismos que contribuem para a
dispersão das abelhas e sua localização na natureza, apresentam em comum um aspecto
fundamental, que é a escolha pelas campeiras ou batedoras do sítio definitivo de
moradia.
A escolha do local onde o enxame vai se instalar, envolve
inicialmente o reconhecimento dos sítios pelas batedoras, comunicação pela dança
e a liberação de feromônios, notadamente da glândula de Nassanof das operárias, que
sinalizam o local definitivo onde se dará a agregação e início da nova
colméia.
A compreensão e a elucidação de quais variáveis poderiam
estar influenciando neste comportamento decisório, poderia resultar em uma "caixa
isca" que fosse altamente atrativa para as abelhas e que fosse extremamente prática
para a monitoração e retirada dos enxames das regiões passíveis de acidentes.
O Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (Universidade de São Paulo) conseguiu tal intento desenvolvendo uma
caixa-isca padrão, confeccionada de papelão, que deve ser pintada com cores claras
(branco ou amarelo) que são 1.5 X mais eficientes que aquelas pintadas com cores mais
escuras (verde folha, azul marinho ou preta). Deve ter um volume de aproximadamente 35
litros, conter no seu interior 5 caixilhos, com 1/3 de cera alveolada, e ter um análogo
do feromônio da glândula de Nassanof, que é extraído do capim limão ou capim erva
cidreira (Cymbopogon citratus), que é colocado em vaselina e aplicado nas paredes
da colméia ou no interior de um tubo eppendorf preso no arame do caixilho central. A
caixa deve ter uma abertura de 10 cm2 ,
e dever ser colocada a uma altura de 2,0 m do solo.
Testes comparativos revelaram que a caixa papelão é
pelo menos 10 vezes mais atrativa que aquelas caixas iscas construidas com madeira e sua
durabilidade pode ser aumentada revestindo-as com sacos plásticos ou pintando com tintas
impermeabilizantes.
Essa caixa entretanto, não serve para criar abelhas. É uma
caixa que se presta simplesmente para a captura dos enxames e não para se fazer
apicultura. Embora a caixa de papelão resista até 2 meses com o enxame dentro, eles
devem ser passados logo para a colméia Langstroth padrão para se desenvolverem. A
transferência do enxame deve ser feita de preferência depois que a rainha realizou
postura nos favos e que já tenha larvas jovens. Não convém passar o enxame recém pego
porque ele poderá abandonar a sua colméia.
A eficiência dessa caixa isca, já foi determinada em várias
situações experimentais, e hoje temos a total certeza de que se durante a exameagem ela
for encontrada por uma "batedora" que esta procurando um local para o enxame se
abrigar, seguramente que o enxame irá para dentro da caixa isca. Isto abriu a grande possibilidade de prevenir e controlar acidentes em
áreas urbanizadas.
A utilização dessas caixas iscas pelo Departamento de
Genética da FMRP-USP como estratégia de prevenção de acidentes, já foi realizada na
indústria AKZ turbinas (Ribeirão Preto, SP), na Fazenda Amália (Cajuru-Serrana, SP) e
na própria cidade de Ribeirão Preto, com resultados
altamente significativos, obtidos através do Programa SOS Apicultor.
Esse modelo de caixa isca, foi utilizado nos países
Centro-Americano, para prevenir acidentes e retardar a invasão das abelhas africanizadas
no México e nos USA dentro do Programa de Manejo y Control de la Abeja
Africanizada, financiado pelo BID/OIRSA do qual participaram vários pesquisadores
brasileiros.
O México que é um dos maiores exportadores de mel, antevendo
o que poderia significar a entrada das abelhas africanizadas em seu país, utilizou
o modelo brasileiro de caixas-iscas, e instalou aproximadamente 300.000 caixas iscas nas
rotas de entrada com a Guatemala e hoje mantém um esquema na própria cidade do México
de prevenção de acidentes, utilizando ao redor 30.000 caixas.
Os apicultores podem optar também por caixas iscas
feitas de madeira que são mais duráveis, mas devem obedecer os mesmos procedimentos para
as caixas de papelão.